65th Mostra Internacional de Arte Cinamatografica de Veneza

A 65th Mostra Internacional de arte cinematográfica de Veneza nos ofereceu durante os últimos onz dias, o panorama mundial da produçao cinematográfica. Evento onde se estabelece uma frenética atmosfera em busca das sessoes mais concorridas, afim de visionar a tendencias do cinema contemporâneo. Grandes produçoes dividem espaço com cinematografias emergentes, ao mesmo tempo que bons filmes contrastam com ruins. Onze dias de intenso trabalho, deixando que a luz projetada queime nossas retinas, simplesmente para afiar-la afim de separar cada material quanto a suas qualidades fílmicas.E valorar a traves de um processo lógico, o comportamento cinematográfico dos muitos diretores expostos. Vamos propor aqui descrever as impressoes deixadas na 65th Mostra, analisando as distintas vertentes apresentadas (digital e analógica), e sua relevância qualitativa. De modo que mencionaremos as obras destacadas pela premiaçao oficial, sem esquecer de alguns outros filmes selecionados, que merecem também um comentário.Mas é preciso dizer desde agora, que uma opiniao comum entre os profissionais da indústria, foi que, num plano geral, a 65th Mostra de Veneza deixou a desejar quanto seus aspectos seletivos. Acredito que a insatisfaçao do críticos se deve ao excessivo numero de obras digitais presentes, embora algumas realmente merecem ser reconhecidas por sua qualidade cinematográfica. Mas numa grande maioria, o suporte digital apresentou obras ruins, e essas questoes queremos expor aqui. Essa tendencia faz parte de um fenômeno global, e devem ser analisadas.

Breve ensaio sobre a questao digital na 65th Mostra de Venezia

A mais sólida tendencia que podemos comprovar nos grandes festivais europeus, e a 65th veio para confirmá-la ainda mais, é que o suporte digital vem ganhando cada vez mais espaço no concurso das mais importantes premiaçoes. Para iniciar uma analise critica desta tendencia, é necessário dizer que em muitos casos, esse fato prejudica o potencial criativo da arte cinematográfica. Em nome do progresso tecnológico,a linguagem do cinema esta sofrendo importantes mutaçoes estéticas, que nem sempre significam um autentico progresso. Nao se trata de cair no discurso de defesa pura ao 35mm. Somos conscientes de que a captaçao da imagem via suporte digital é uma realidade eminente, embora podemos constatar que esse fenômeno, em muitos casos, prejudica a evoluçao lingüística do cinema. Essa é uma afirmaçao provocada por muitos diretores que ainda nao souberam se adaptar. Temos que dizer que a tecnologia digital está ainda anos luz da qualidade ótima do suporte clássico 35mm. E que a crescente tendencia produtiva digitalizada está contaminando negativamente a seleçao oficial dos grandes festivais do mundo. Salvo algumas exceçoes, as esperanças sao mantidas pela obra de cineastas vanguardistas que se adaptam exclusivamente ao novo suporte, como é o caso de Inland Empire, de David Linch, por citar um nome.

Primeiramente, quando falamos em problemas e defeitos do suporte digital, nos referimos a uma questao óptica: a limitada profundidade de campo das lentes em digital, obriga os diretores a trabalhar uma imagem de forma que o foco é total em todos os segmentos do enquadre, e por praticamente um filme inteiro. Isso representa um grave erro lingüístico de um diretor inadaptado, pois quando o espectador se depara com um enquadre totalmente em foco, nao existe diferenciaçao quantos aos valores dos elementos que o compoe. O olhar do espectador nao é direcionado a nenhum ponto em concreto, e sim a todos possíveis, resultando em um desconforto visual. Quando todo o enquadre está a foco, significa que diretor nao está trabalhando a separaçao dos elementos, e assim, diz ao espectador que tudo o que está a mostra possui o mesmo valor cinematográfico. Desta forma, o autor emprega a mesma importância a todos elementos. Isso é uma constataçao teórica. Estamos falando de cineastas que utilizam câmeras de baixa gama, ou semi-profissionais. Mas é importante dizer que muitos filmes que utilizam esse equipamento estao sendo amplamente selecionados em grandes festivais, como Veneza, ou Berlin.

Francamente, essa utilizaçao representa uma forma bem medíocre de trabalhar a linguagem cinematográfica, e até mesmo amadora. A limitaçao técnica será resolvida quando os diretores digitais passem a usar câmeras com ópticas PL, igual que das câmeras 35mm. Enquanto isso nao ocorre, o papel do critico tem que ser implacável frente a essa questao. Nao deveria ser aceito o argumento de que o uso do material semi-profissional possibilita cineastas com poucos recursos exporem suas visoes. Pois, como ja foi dito, o uso dessa técnica prejudica a evoluçao lingüística do cinema. E isso onde deixamos ainda sem citar a baixa fidelidade cromática, e o difícil controle das altas luzes como outros problemas estéticos.

O argumento exposto aqui, nao representa de forma nenhuma, um discurso elitista. Todos nós sabemos a importância de democratizar o cinema. O problema, é que em nome dessa democratizaçao, se está consolidando o fenômeno de banalizaçao da imagem nos grandes festivais. Qualquer pessoa pode fazer cinema digital hoje em dia, mas isso significa que teremos que convier com obras cada vez piores, pra nao dizer insuportáveis.

Esses sao os contras. Agora bem, podemos encontrar algumas raridades digitais que possuem muito valor cinematográfico.Jia ZanghKe, selecionado na 65th Motra com o curta “Cry me a River”. Ele é hoje o mestre deste suporte, quase uma unanimidade. Podemos contemplar em toda sua obra digital, uma grande preocupaçao com as implicaçoes estéticas do suporte. Vemos seu esforço por se aproximar ao maximo das dominantes do celulóide, a traves das trabalhadas texturas dos espaços onde se localizam seus filmes, e a través da técnica óptica. Seu comportamento frente ao digital é o contrario de alguns outros diretores selecionados, que se comportam frente ao suporte como vitimas da falta de dinheiro, em vez de encontrar uma soluçao criativa para os problemas estéticos implicados. Um grande diretor digital seria quem fosse capaz de superar essas limitaçoes , fazendo com que o tema, ou argumento seja um caráter primário a estética. Isso é algo quase impossível: Estética é o primeiro contato do olho espectador com o filme, e em muitos casos é o que garante a fidelidade do espectador com o visionado. Superar as limitaçoes digitais e manter o conforto aos olhos, somente é possível com grande capacidade criativa na direçao, e na fotografia, obviamente. E a verdade é que nem todos os diretores possuem essa capacidade.


A premiaçao da FIPRESCI, ao filme Gabbla” (“Inland”) (Tariq Teguia, Algeria), deve ser considerada como um impulso, e um exemplo a seguir para os outros cineastas digitais. Apesar dos muitos problemas que possuem muitos diretores adeptos ao digital, a federaçao internacional dos críticos decidiu apoiar um filme que soube utilizar a fragilidade do suporte ao se favor. Decidiu premiar uma estilística digital adaptada a narraçao, para que os próximos filmes e os próximos festivais se inspirem e melhorem em como fazer. A FIPRESCI nao perdeu as esperanças apesar de tantos pesares. Foi muito importante o reconhecimento ao filme Gabbla” (“Inland”), dado que além do significado intrínseco dessa premiaçao, trata-se de um filme dirigido com maestria, e absoluta consciencia. Uma historia que busca expressar a o período pos guerra civil na Argélia(1992-2002), retratando seus restos e conseqüencias na atual sociedade. O argumento se baseia em Malek, um topógrafo que aceita um trabalho na remota zona Ouarsenis, no norte do país. Uma regiao infestada por minas terrestres, onde o protagonista tem que conviver entre a sociedade ocidental e o mundo islâmico. Uma obra forte pulso critico, reividicadora de um “movimento dionisíaco” da sociedade, como se apresentam os atores num debate sobre o mundo logo no inicio do filme.

Outro filme muito interessante neste suporte foi Hooked, do romeno Adrian Sitaru. Longa metragem filmado totalmente em planos subjetivos dos 5 personagem, . Conta a historia de um casal, que no fim de semana, decide fazer um pic nic num parque. Pegam o carro,e no caminho atropelam uma prostituta. Quando entao ,nao sabem o que fazer com o corpo e decidem abandoná-la num bosque, ela desperta, e percebem que a garota nao sabe muito bem o que aconteceu. Tentam disfarçar, e a convidam para passar a tarde com eles no parque. Mas entao, começa o jogo da prostituta. Se inicia a uma serie de diálogos intrigantes entre ela e o casal, de forma individual (o casal ocupa espaços separados do parque nestes momentos de modo que a prostitua mantem um dialogo individual com cada um). Pela incerteza se ela sabe ou nao do atropelo, o casal esta vulnerável frente a perspicácia da prostituta. Ela entao consegue penetrar em seus segredos, e os usa para manipular-los. O filme se baseia na teoria aristotélica, que implica que a narraçao se deve centrar no aqui e no agora, trabalhando o tempo cinematográfico de forma que precede o uso de elipses. Os diálogos construídos em forma de contra ponto entre os personagens e possui a inteligencia suficiente para manter o espectador atento nos detalhes, e entender suas personalidades e suas reaçoes.Os atores também estao esplendidos, e livres, dando a impressao que em vários momentos inventam o dialogo instantaneamente.
O filme ”Vegas: a true historie”, um dos digitais concorrendo ao premio principal, é outro que se filmado em 35mm, teria um resultado ainda mais positivo. O diretor Amir Nadeli conseguiu realizar um filme bem interessante em HD, retratando o comportamento obsessivo de uma família decadente ex viciada em jogo, . Um drama com pitadas de comedia, localizado aos redores de Las Vegas, filmado com inteligencia, mas caindo nessa historia de limitaçao estética do digital. Mesmo assim, é mais um filme que abstrai o problema estético através de um sólido argumento. Neste caso, o comportamento obsessivo chegou ao absurdo: Eddie , o protagonista, acredita que em seu jardim (muito bem cuidado por sua mulher) está enterrado um tesouro incalculável, somente pelo fato de que um ex oficial do exercito ofereceu uma boa quantia de dinheiro pela casa, justificando que ali foi o local de sua infacia, e de grande afeto para sua mae. Eddie nao convence sua mulher de vender a casa, e começa a suspeitar existir algum outro motivo para esse comprador desejar seu modesto terreno. Entao convence sua mulher a escavar o jardim, começando por um pequeno buraco indicado por um detector de metais barato. Começa entao a desgraça: nada pode convencer a Eddie que nao há a fortuna escondida, e ele entao inicia a escavaçao cada ve em maiores proporçoes. No começo, sua mulher e seu filho ate ajudam a escavar os primeiros buracos, mas logo se contrariam totalmente. Eddie chega a alugar uma escavadora, e aos poucos destrir tudo que possui, a relaçao com sua família e sua casa. Termina encontrado alguns canos, e a mulher abandonou a casa, seu filho de 12 anos lhe prepara o jantar... Uma parodia agradável sobre o estilo de vida da decadencia americana, mais concretamente o de Las Vegas.


Outro filme digital que marcou, foi zero bridge, rodado na Caxemira, pelo americano Tariq Tapa. Impressionante narraçao fronteirizando com documentário; o filme é na verdade uma tese feita para a universidade local, onde o diretor estuda. Rodado também em formato HD, trata de um jovem rebelde, de 17 anos, que necessita adaptar seus sonhos a dura realidade em que esta imerso. Varias obrigaçoes, o tradicionalismo, dificuldades atravessam seu desejo de mudar para Delhi, lugar idealizado como ponto de possível realizaçao pessoal Uma realidade em muitos pontos semelhante a do Brasil. Entre sobreviver sem os pais, e a dedicaçao aos estudos, Dialawar passa por vários dilemas morais, amorosos; e os encara de frente, com a vitalidade necessária para garantir sua sobrevivencia. Interessantíssima planificaçao narrativa, onde as seqüencias se apresentam, nao como uma açao lineal por parte do protagonista, e sim açoes quase que independentes, elipses longas, onde as conseqüencias de cada seqüencia, estao bem adiantadas em relaçao uma com a outra, dilatando o tempo cinematográfico . Os lapsos elípticos sao distantes, dando muita complexidade ao elo narrativo, mas que no final do filme resulta muito eficiente, no que se refere a expressao global do cotidiano de um jovem em uma regiao conflituosa.

Todos esses bons filmes esbarram na problemática estética exposta. Mas por serem bons, conseguem superá-la. Mas resulta desagradável acostumar o olho a algo que é pior do ques estamos acostumados. Esperamos sim, que o digital evolua, mas ainda existem muitas barreiras, e problemas para resolver. Por conta disso, a evoluçao tecnológica está transformando o cinema mundial em uma arte em plena mutaçao conceitual, que no presente momento resulta ser menos eficiente que a atual, no sentido de qualidade estética. Pode se dizer que nao é culpa do cinema, e sim da tecnologia, mas os cineastas serao sempre os responsáveis por descobrir como utilizá-la. Nos próximos anos, quando esses problemas forem resolvidos, haverá outras questoes. Em quanto isso nao ocorre, a boa e velha película irá garantir sua supremacia com muita facilidade. As obras digitais estao ainda a anos luz da qualidade fotoquímica.


35mm, esplendor insuperável


Os filmes em 35mm da 65th Mostra tiveram entre níveis de regular e bom, com as produçoes francesas, particularmente com um nível superior aos dos demais paises. Obviamente, comentar aqui boa parte dos filmes visionados daria espaço para m livro, entao vamos apresentar um comentário de algumas das obras com mais relevância no sentido no sentido da premiaçao oficial,e outra que se destacou pela forma, técnica e argumento.

Win Wenders e seu time de júri composto por Lucrecia Martel entre outros, decidiram premiar com o leao de ouro o filme “The Wrestler”, marcando o retorno de Darren Aronovsy ao certame italiano, mas desta vez triunfante, após uma passagem negativa em 2006 com “The Fountain”. O diretor de“Requein for a dream”, apresenta uma historia comovente, embalada pela musica de guns n´roses , sobre a trajetória de um veterano lutador de vale-tudo. Randy, que se ve obrigado a parar de lutar por problemas de coraçao. Após a retirada forçada, Randy começar valorar a situaçao de sua vida: busca se entender com sua filha, e resolver-se com um antigo amor. Mas na verdade, o que lhe mais realiza é a luta, e entao decide voltar. É um filme sobre superaçao e paixao, ao estilo de “Roky”. A premiaçao de “The Wrestler” nao chegou a ser grande surpresa , havia filmes como ”The Hurt Locker” ou ”Paper Soldier”, que também estavam bem cotados, mas Veneza também é conhecida por sua inclinação Hollywoodiana. “ The Wrestler” com o leão de ouro, manteve esta tendência, mas também ajudar a gerar uma das máximas do festival, que foi que haviam melhores fora da premiação principal.

PA-RA-DA, é uma co-produçao franco-italiana. Belíssimo filme, baseado numa historia real, que nos traz a vida de um jovem ativista social frances que decide ir a Romenia, em Bucareste, para ajudar as crianças de rua que vivem na marginalidade desta cidade. Outro filme que se aproxima aos temas sociais brasileiros, e que pretende indagar até que ponto, o protagonista Milou, pode ajudar a quem necessita, e se quem necessita quer realmente ser ajudado. Assistimos ao cotidiano de Milou em Bucareste. Ao chegar, trabalha para entender e ganhar a confiança dos pequenos marginais..Crianças que praticam pequenos furtos, usam drogas, se prostituem, e vivem em uma espécie de esgoto abandonado, lugar sinistro , onde qualquer pessoa que entre por primeira vez, é incapaz de nao vomitar. De igual para igual, e com o lema respeito, Milou; devagar, se aproxima e se insere no cotidiano desses pequenos ingenuo, mas agressivos, que aos poucos com se rendem ao seu carisma.. Câmera ágil, som bem trabalhado ao estilo realista, fotografia afinada as necessidades, com um agradável aspecto granulado tao vibrante intensa como a realidade das ruas de Bucareste. PA-RA-DA freqüenta espaços obscuros, sujos, caótico, livre. Passamos por bares decadentes, estaçoes escuras, o mundo underground como único ambiente possível.. Milou sofre pressoes da policia e da máfia local por suas atividades diárias com as crianças. Procura que elas se expressem a través de jogos e pequenos teatros improvisados. Realmente belo, filme completo na arte e no compromisso. Triunfo devido a convicçao de seus atores,.Nos mostram que antes qualquer problema social coletivo, estamos falando de seres humano individuais. E que cada um tem algo a dizer, um sentimento que compartir. O objetivo de Milou, nao era tirá-las da rua e colocá-las na escola, e sim era escutá-las. Estava ali para que elas pudessem se expressar, uma unica chance que alguém tinha que dar-las para que saia a voz de seus desejos íntimos.


A participaçao brasileira


A participaçao do cinema brasileiro na 65th Mostra de Veneza foi positiva. Foram 4 filmes, entre eles 2 co-produçoes, e 3 deles produzidos pelos imaos Gullane, de Sao Paulo, dois quais dois estavam em competiçao, “ BirdWatchers, filme sobre um importante tema nacional, que é o conflito entre fazendeiros e índios na disputa pela demarcaçao de Território, uma co-produçao ítalo-brasileira, que deve chegar as telas em novembro. A Gullane Filmes também co-produziu com a china (com a pariticipaçao de Jia Zanghke, e dirigida por seu diretor de fotografia), “Plastic City”, também concorrendo ao leao de ouro, filme que retrata a vida de um gangster chines e de seu filho, ambiente bandido do contrabando de mercadorias em Sao Paulo, no bairro da liberdade.José Mojica Marins, veio com Zé do Caixao protagonizado “A encarnaçao do demônio”, já comentado aqui na revista, e que teve uma boa repercussao no publico.Julio Bressane, veio mais uma vez, agora com a “erva do rato”. Estrelando Alessandra Negrini e Selton Mello. Livre adaptaçao de contos textos de Machado de Assis “ Um esqueleto” e “ A causa secreta” . Certamente um dos filmes mais arriscados do festival, buscando a uniao entre a literatura e o cinema, prescinde da clássica narrativa lineal, para realizar uma obra que invoca abstrair o sentido lógico, e aprofundar-se no território intuitivo-intelectual do expectador. Filme complexo ,uni espacial e iconográfico. De um autor hoje reconhecido como o principal vanguardista do cinema brasileiro. “A erva do Rato” é um filme pessoal e intimista , me arrisco a dizer que Julio buscava que os espectador indagasse seu significado de forma exclusivamente subjetiva.

Premiaçao da Seleçao Oficial


LEAO DE OURO"The Wrestler,” (Darren Aronofsky, US)
LEAO DE PRATA “Paper Soldier” (Alexey German Jr.., Russia)
PREMIO DO JURI "Teza," (Haile Gerima, Ethiopia-Germany-France)
ATORSilvio Orlando (“Il Papa di Giovanna,” Italy)
ATRIZ Dominique Blanc ("L’Autre," France)
MELHOR ROTEIRO Haile Gerima (“Teza,” Ethiopia-Germany-France)
CONTRIBUIÇAO TECNICA(Cinematography) Alisher Khamidhodjev, Maxim Drozdov (“Paper Soldier,” Russia)
PREMIO MARCELLO MASTROIANNI PARA MELHOR DIRETOR REVELAÇAO Jennifer Lawrence (“The Burning Plain,” US)
LEAO ESPECIAL PELA OBRA COMPLETA Wermer Schroeter (Germany)

OUTROS JURADOS

LUIGI DE LAURENTIIS LEAO DO FUTURO “Pranzo di Ferragosto,” (Gianni Di Gregorio, Italy)
VENEZAHORIZONTE“Melancholia” (Lav Diaz, Philippines)
VENEZA HORIZONTE DOCUMENTARIO “Below Sea Level,” (Gianfranco Rosi, Italy)
VENZA HORIZONTE MENÇAO ESPECIAL “Un Lac,” ( Phileppe Grandrieux, France)
VENEZA HORIZONTE SEGUNDA MENÇAO ESPECIAL “Women,” (Huang Wenhai, China-Switzerland)
PREMIO SEMANA DA CRITICA"L'Apprenti," (Samuel Collardey, France)
Label Europa Cinemas – PREMIO DIAS DE VENEZA“Machan,” Uberto Pasolini, (Sri Lanka-Germany-Italy)
PREMIO FIPRESCI"Gabbla” (“Inland”) (Tariq Teguia, Algeria)
PREMIO FRIPRESCI SEMANA DA CRITICA“Goodbye Solo” ( Ramin Bahrani US)

CURTA METRAGEM
PREMIO CORTO CORTISSIMO “Tierra Y Pan,”(Carlos Armella Mexico)
CORTO CORTISSIMO MENÇAO ESPECIAL“The Dinner,” ( Kaechi Perlmann Hungary)
PREMIO UIP MELHOR CURTA METRAGEM EUROPEU“The Altruists,” Koen Dejaegher (Belgium)

Caos Calmo, 2007




Caos Calmo é um filme intimista que tenta retratar a desumanidade, ou , insensibilidade da classe burguesa italiana.
Enquanto sua mulher sofre um acidente fatal, o protagonista Pietro está salvando uma mulher afogando-se na praia. Quando está de volta vê ambulancias, sua filha corre para abraça-lo, e vê que o destino o fez um viúvo. A questão deste filme, é que Pietro, aparentemente não sofre com essa perda. Suas emoções ficam bloqueadas, e então seus sentimentos subterraneos vs. a tranquila atitude superficial, geram o contaponto indicado no título. " Caos Calmo".


Apartir de agora, este alto empresario do setor audiovisual italiano, limita sua ações cotidianas apenas em levar sua filha à escola, e ali permanecer sentado, num banquinho da praça em frente, esperando até a hora da saida. Simplesmente observa o repetido movimento diário, e de forma contemplativa, se relaciona com o que há ao seu redor. Abandona seu trabalho, e recebe visitas profssionais e familiares ali mesmo, afirmando pra si e para os demais, a inutilidade de tentar resgata-lo à vida normal. Vemos agora o rico burgues vazio, incapaz de sentir e exteriorizar suas emoções.


Desta forma o filme pretende estabelecer uma crítica sobre a sociedade industrial contemporanea, como se o monólogo de Piertro representasse a realidade emocional de milhões de pessoas das cidades cosmopolitas. De fato, funciona como uma crítica indireta: a simpatia de Nani Moretti chega representar um obstáculo numa representaçao mais ácida por parte do protagonista, formando assim um filme mais aproximado aos moldes do costumismo. O pesonagem de Pietro tinha tudo para ser um tipo desprezível, mas devido ao seu caráter calmo e contemplativo, o espectador passa a respeitar a decisao de seu retiro quase como um autentico retiro espirtual em plena selva urbana,de forma merecida. Momentos onde o persnagem deseja por fim econtrar consigo mesmo afim de liberar de suas emoçoes reprimidas: este momento culminará no choro de Pietro. Neste sentido podemos observar como a construçao do personagem se baseia em um concreto perfil psicológico semi-neurótico, de uma tipica pessoa que atravessa uma crise egoísta.


Quanto a questoes formais, o diretor nao se atreve mais do que copiar movimentos de camera utilizados ja por outros cineastas, referindo-se aos filmes de Godard na utlizaçao de travellings laterais repetidos em alternancia, para expressar uma mudança de decisao momentenea. O
encuadre mais arriscado do filme seria um plano com a camera em vertical sobre o mar, focando a afogada resgatada, logo no primeira sequencia. Técnicamente um plano dificil de se realizar.


Estruturalmente, a linha narrativa, figura a praça em freta à escola da filha, como o espaço epicentrico do filme, que magnetiza até si os ocorridos fora de campo. A maioria dos elementos que compõe a ação narrativa neste espaço em concreto (atores e objetos) cumprem com suas justificações cinematográficas, e ajudam à expressão da crisis do protagonista. Mas existem alguns elementos exteriores ao espaço que não se completam, e taopouco possuem uma justificativa cinematográfica coerente, fazendo com que uma ou outra sequencia do filme sejem absolutamente desnessarias. Referindo-se à repercutida sequencia de sexo. A personagem feminina desta sequencia em concreto, não representa no filme nenhuma outra importancia, a não ser "trepar" com Nani Moretti de maneira selvagem. Pode-se dizer que ela serve como um elemento de substituiçao da falecida mãe; e mulher, mas seguramente, essa atriz de belo corpo foi representada de maneira exagerada e desnecessária; resumindo, incoerente cinematográficamente.


O proprio autor do livro que gerou o filme, Sandro Veronesi, comentou a repercução dessa sequencia, dizendo que ela chocou devido que a filha de Pietro dormia neste momento no quarto acima. Em minha humilde opiniao (não li o livro), digo que o choca não é o sexo em si, e sim a desarmonia com que esta sequencia foi utlizada em comparação com o que vinha sendo trabalhado nos outros segmentos do filme. Neste caso, é sempre bom lembrar a Robert Bresson " um plano é como a cor de um quadro, um amarelo, nao é o mesmo amarelo ao lado de um azul ou um verde..." O diretor de "caos calmo" vinha trabalhando com predominancias "azuis", por dizer algo, e do nada joga um balde de verde florecente no espectador: claro que vai chocar, e claro que nao tem nada a ver.


Voltando a Pietro. Ele segue ali, dia após dia. Sentado esperando sua filha na hora da saída, e o mundo girando ao seu redor. Pietro ja não quer encarar suas responsabilidades adultas. O único elemento que o mantem vivo é sua filha, que assim como o pai, mantem também suas emoções frias pela morte da mãe. Em um momento interessante, onde Pietro se encontra em uma especie de encontro psiquiátrico grupal, entende que sua filha não sofre, pois ele também incapaz de sofrer, gerando uma reflexão sobre o desenvolvimento emocional das futuras gerações. A menina, que só chorou uma vez no filme, e no começo. Gosta da Britney Spears, e é retratada como uma prolongaçao emocional do pai, e deixa pistas de como os autores prevém o comportamento dos futuros adultos italianos.

"Caos calmo" navega por águas contraditórias, Pietro é contraditório, e sua filha está para ser uma adulta neurótica, devido aos seus sentimentos reprimidos. Destacando-se o trabalho específico ao desenho psquico de cada personagem, como quem tenta representar as potentes previsões de Carl Jung sobre a saúde psicológica do nosso tempo, feitas em 1930. O que era para servir como crítica dura, acaba minimizado ante uma agradável atuação de Moretti, da qual o filme deve seus triunfos, quase em totalidade. Foi uma boa surpresa também, ver a participaçao de Roman Polanski interpretando um magnata americano, numa rápida aparição.

Aritmética Emocional, 2006


Antes de realizar este filme, o diretor Paolo Brazan se pergunta:

" Como sobrevive emocionalmente um sobrevivente da segunda guerra mundial?"
" Como a memória afeta a capacidade de ser feliz?"
" Relembrar o passado pode ser um obstáculo para a felicidade?
" A memória desenha nossa compreensão do presente, paraliza os sentimentos, põe em perigo o potencial de amar, e imoviliza as futuras gerações?

Atravéz destas interrogantes aparece , "Emotional Arithmetic" inspirado no livro de Matt Cohen. Se trata de uma história de feridas que , não sabemos, talvez nunca se curarão. Um filme sobre o reencontro entre pessoas que estiveram, e seguirão estando ligadas para sempre. Sim, se trata de uma história de amor, mas de um amor extraordinário, ligado aos piores horrores do passado. Um amor unido pela memória, e nada mais.



Segundo longa metragem de Paolo Brazan, diretor com longa experiencia em series televisivas. Extraordinariemente interpretado por Susan Sarondon (Malaine), grandioso Gabriel Byrne (Cristopher) e pelo heróico personagem Jackob (Max Von Sydow).



Pretéritos



Melanie, uma americana que passou parte de sua juventude na França durante a década de 40, cujo os pais sumiram sem deixar rastros , e que foi arrastada para o campo de concentração Darcy, ao norte de París. Espaço usado como área de passagem e transporte humano para outros campos, onde se calcula que passaram umas 100.000 pessoas, e provavelmente a maioria morreu. Nossos personagens seriam sobrevientes milagrosos da maior tragédia. Neste local, Melaine e Cristopher (13 anos aprox.) conhecem a Jackob (entao com 30 anos aprox.), um judeu polonês, que após a guerra morou na Russia, e no campo, além do trabalho forçado, atuava como protetor das crianças Madaleine e Cristopher. Jackob era o anjo que não deixava os outros sequestrados cairem no desanimo. Fazendo-se de garçom, servia comidas imaginárias para aliviar a fome dos seus companheiros . Pouco antes da guerrra terminar, subornou os guardas colocando-se à disposiçao de ir no trem para auschwitz em troca da permanência de Cristopher e Melanine em Darcy. Chistopher era uma criança irlandesa ,cujo os pais tambem haviam desaparecido. Não era judeu, mas foi capturado pela polícia francesa e levado ao dito campo. No entanto, ali conheceu a Melaine, e juntos estabeleceram uma união de sobrevivencia. O filme representa esses momentos atravéz de flashbacks, principalmente quando os personagens estão sozinhos . A lógica dos campos o forçou a separação entre os pequenos, deixando para os próximos 40 anos, a dor, a incerteza, o amor, e a memória implacável.

Fotografia durante as filmagens

´ Você me pergunta se acredito em Deus. Me desculpa se respondo, Deus acredita em mim?`

Presente


O filme começa no ano 1985. No transcurso destes 40 anos, Melaine se casou com um professor de história muito maior que ela, David (Cristopher Plummers), com quem mantém uma relação, digamos , distante, e produziu um filho, o observador Benjamim (Roy Dupuis), que por sua vez gerou um neto, o pequeno Timmy. Após a guerra, Melaine se dedicou a reunir informações sobre sobreviventes, e entao descobre que Jackob está vivo. Se apressa a entrar em contato com o homem que salvou sua vida, convidando ao já senhor maior, nao só para uma visita, mas também para vivir com ela, que agora reside no Canadá. Jackob responde sua carta, e não dúvida em ir a vê-la. E para a surpresa de Malaine, traz consigo a Cristopher, que hoje é um homem introspectivo, mora e trabalha em París, onde se especializou em estudar vespas (não consegui compreender o signifado cinematgráfico de seu destino).


Este reencontro iniciará uma série de questionamentos entre os nossos protagonistas. Se estabece um ambiente de emoçoes muito delicadas, que nao só desejam, mas que precisam exteriorizar-se. A cada primeiro plano vemos brilhantes expressões de angústia, que impressionantemente ,trazem consigo todo o enorme peso de uma geração submergida nas memórias do horror . Cada um tenta manejar suas fortes emoções de maneira "aritmética" criando um ambiente de erupção emocional, onde o espectador é quase obrigado a interfirir com suas lágrimas. Um reencontro de alívio, mas realmente difícil para todos, e para nós também.


Logo após a chegada dos convidados à pequena casa rural onde vivem Malaine e David, vemos um ambiente cordial, mas que logo se tranformará em uma tensa atmosfera. Haverá um jantar pela noite, mas antes, o dia nos servirá para entender a verdadeira face da relação que os une. David é cínico, e reage de forma hostil aos recém chegados. Cristopher se sente incomodo pela surpresa que causou sua presença, e por ver a mulher que amou pelas lembranças, casada com outro homem. Jackob olha pra Melaine com dor, apesar de hoje ser uma mulher forte e decidida , ele se culpa por haver dado uma missão à ela quando estavam no campo: Jackob lhe deu um caderno e a comentou a importância histórica de documetar os ocorridos em Darcy. Então a pediu que anotasse cada nome, nacionalidade, idade, peso; cada detalhe dos que chegavam ao campo. Melaine obedeceu como uma boa criança, e pela noite no jantar ela devolverá o caderno com a missao cumprida. Jackob logo percebe que haver feito esse pedido a ela, impossibilitou que Melaine fosse feliz. Em cada número, cifra ou letra, Melaine gravava o expoente multiplicativo de sua dor.





De todas as exelentes sequencias que compoe o filme, é justo ressaltar uma em especial que ocorre antes desse jantar. Melaine e Cristopher vão à cidade comprar a comida. É a primeira vez que estão sozinhos em 40 anos. Essa sequencia diurna serve para marcar o ambiente prévio à erupção emocional que culminará no mecionado jantar, e nela está contida os muitos sentimentos à sombra que o filme pretende invocar. Dirigida com maestria, através de planos em velocidade e um ritmo que projeta alta tensão , utiliza um trem, como elemento semiótico para representar ditos sentimentos . Neste momento estão os dois no carro a caminho da cidade. Para potencializar o constragimento deste do reecontro, se estabelece um montagem paralelo entre o carro dos personagens, e o trem que cruzará seu caminho. Será demais, ter que além de tudo, parar o carro, e em silêncio olhar o trem passar quando chegarem ao cruzamento de vias . Melaine então, se apressa e pisa no acelerador para ultrapassar o temido trem, e quando chega o crucial momento de cruza-lo, escapam por um triz de não se chocar . Este momento é quando se quebra o gelo entre eles, e após uma longa rizada para aliviar, os dois se olham e lembram o que são: dois sobreviventes que se amam.

É quase impossivel não dizer que o que une Melaine e Cristopher seje maior do que une ela e seu atual marido, que por sua vez, é o que o filme diz, uma vítima indireta da guerra. Atravéz desse fato surge as refelxões que o filme propõe : Pode o ser humano viver sem se indentificar com o passado? Apesar das respostas cinematográficas (fatos) contidos no filme sejem predominatemente negativas frente à essa questão, o filme termina com a despedida calorosa entre Cristopher e Melaine. Ele compreende que nada poderá mudar o sentimento que compartem mutuamente, e decide ir-se para não provocar mais ultra-emocionalismos. O velho Jackob, permanece com ela para tentar se "redimir", e com sua importantíssima presença para Melaine, provavelmente irá ajuda-la a ser feliz.

Tierra y Libertad , 1995




1. Prólogo



"Tierra y Libertad" 1995, é um mergulho realista nas lutas que ocorreram em Barcelona em maio de 1937, e que acabaram com o exterminio da resistencia revolucionaria praticada por organizaçoes de extrema esquerda como POUM e CNT. O diretor Ken Loach consegue entrar no amago do coraçao revolucionário, e mostrar que as causas do fracasso da revoluçao espanhola por parte dos socialistas radicais está nos desentendimentos ideologicos, e na vulnerabilidade organizacional e logistica do movimento, que por sua vez, foram provocados pela traiçao revolucionaria dos estalinistas.
A situaçao do contexto histórico, era que o partido comunista queria ganhar primeiramente a guerra contra Franco antes de abolir o capitalismo em Espanha. Isso foi a fonte de contradiçoes entre as forças de resistencia comunistas e anarquistas. Cabe lembrar também que os partidários anarquistas eram representados por mais 1.500.000 de afiliados ao CNT, e que a grande massa da popualaçao barcelonesa os apoiavam na luta de defesa antifacista na capital catala.

"Tierra y Libertad" nos conta a história de David, um inglês de Liverpool afiliado ao partido comunista ingles, que decide viajar a Espanha para lutar contra os facistas, sob a justificativa de que se o povo espanhol perder a guerra contra a extrema direita, o proliferaçao de regimes autoritários na Europa se extenderá ainda mais. Esse fato representanda uma ameaça para seu proprio país, sobre a liberdade individual e o progreso do povo geral. Para David, maior razao que essa nao existe para viver. Assim sao tambem todos os guerreiros da resistencia que logo encontra em sua chegada a Catalunya. David se junta com primeira organizaçao que encontra, o POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), grupo de resistencia antifacista que funcionava conjuntamente com anarquistas da CNT (Confederación Nacional del Trabajo).


Marx na cabeça e uma arma na mao: O povo buscando a revolução de forma armada, " Hay que arriezgarse", era um momento único. O movimento chegou a realizar importantes avanços, como os miles de hectares coletivizados, funcionando de forma anarquicamente ordenada por um período considerável em partes da Catalunya e grandes áreas de Aragón. Em Barcelona, onde industrias foram tomadas pela CNT, a prática sindical anarquista chegou a levar a industria a produzir mais do que nos estándares capitalistas, representando um verdadeiro triunfo, dado que assim funcionou as coisas por um considerável período. Mas a justa radicalidade sempre foi o inimigo dos conservadores; esses, sao os que verdadeiramente sempre foram os radicais no mantimento da falsa moral do Estado por emcima da moral do povo. O mundo era uma paranóia (real) latente contra o inimigo, progredindo até ninguém saber quem é quem. David enfrentará uma luta armada contra facistas, mas também irá descobrindo todas as caras do jogo, forçando-o a questionar suas própias açoes em meio a ambientes de incertezas. Mas o que de fato nos impresiona no comportamento dos atores, é o eufórica urgencia da causa revolucionária, e também o orgulho de saber o que ela representa.




2. Estrutura, significado da neta

A estrutura narrativa vaga maioritariamente no passado, funcionando em paralelo com visualizaçoes do presente sob a perspectiva da neta de David, que está removendo as coisas do avo apos a sua morte. Com essa morte o filme começa .Ela encontra nos arquivos pessoais de David, recortes de jornal noticiando a guerra civil na Espanha, e as cartas contando seus sucessos na luta. Tais cartas servem no filme como laços para as transiçoes entre passado e presente, para sintetizar as idéias e os sentimentos de David no final de cada sequencia. O paralelo provocado pela ruptura temporal nos serve, como espectadores, para indagar e trazer o impacto da temática em questao, aos dias de hoje. Isso se demostra pelo fato de o filme começar já com a morte de David, nos dias atuais, marcando desde o inicio o cambio generacional; querendo como, sugerir ao espectador presente, que a luta dos revolucionários espanhóis (e europeus) ainda nao terminou. Sua neta expressa essa continuidade. A jovem neta de David aparece como quem está descobrindo histórias que por algum motivo, seu avo nunca as contou . Somente no final podemos ver uma dimensao pessoal de sua personalidade, onde aparece identificada com as causas revolucionárias. Agora com o mesmo espírito que tinha David, resgata desta caixa de memórias as causas para o presente, convocando todos os jovens espectadores a abrir os olhos e fechar o punho junto com ela. Esses sao os ultimos momentos do filme, quando no enterro, ela intervem com essas palavras, de uma poema de William Morris : " Una-se à luta, onde nenhum homem fracassa, porque ainda que desapareça ou morra, seus atos prevalecerao".


3. Evoluçao do Protagonista

É interessante notar evoluçao ideológica de David ao longo do metragem. A luta com POUM começa a ficar dificil por questoes de infra-estrutura. Nao chegam armas, e os militantantes começam a sentir que estao perdendo apoio. As noticias sao difíceis de chegar, mas em algumas conversas se comenta o boicote do partido comunista russo às causas revolucionarias espanholas, devido a que Stalin nao ve agora um bom momento para apoiar uma revoluçao no Ocidente, já que prejuducaría suas relaçoes comerciais com os paises capitalistas. Para a perplexidade de David, isso sao apenas especulaçoes e ele nao acredita. Após um acidente com uma escopeta, o protagonista se ve obrigado à abandonar o POUM no frente agrário, para se tratar em uma clínica em Barcelona. Nesse período muda de opiniao, abandona o POUM de vez , para se alistar nas Brigdas Internacionais do partido comunsita. Após pouco tempo se dá conta que as especulaçoes sobre a traiçao revolucionaria dos estalinistas sao autenticas: Neste incerto período em que está em Barcelona, David se ve lutando contra anarquistas. Em uma sequencia onde estao lutando em cima de um edifício, combatem a tiro o grupo comuntista da brigada internacional contra anarquistas da CNT no prédio em frente. Abaixo nas ruas, passa uma senhora maior e grita "¡ Parad de mataros entre vosotros!¡ Tendreis que luchar contra los facistas!". Estava claro que algo nao ia bem. David percebe que a brigada internacional era contra os milicianos, e que isso representa traiçao direta à revoluçao do povo. Após rasgar seu carnet de afiliado ao partido, decide entao voltar aos seus autenticos "compañeros" (o filme sempre utiliza essa palavra no seu mais alto valor semantico). Mas nessa volta tudo termina: o POUM e a CNT foram declarados ilegais pelo governo republicano,e todos sao obrigados a entregar as armas, uns resitem e morrem, entre eles Branca, o amor espanhaol de David.






4. Diálogos e Ken Loach


"Tierra y Libertad" levanta uma bandeira. Me parece que Ken Loach defende claramente o socialismo liberal, e sua virtude é faze-lo da maneira menos panfletária possível. Utiliza um discurso aberto, e uma técnica de direçao de atores que permite o fluir de dialogos espontaneos: um dos pontos fortes do filme. A celebre sequencia acima no video,o diálogo é estruturamente planificado em pólos dramáticos, onde os personagens se dividem em dois pontos de vista que estabelecem um conflito fundamental. Primeiramente, esse é um drama extraído da realidade, e é utilizado aqui como elemento expressivo de uma das questoes centrais do debate que o filme propoe: Nesta pequena assembléia já estao os primeiros conflitos ideologicos dentro da esqueda. O que mais tarde seria um dos motivos para a perda da batalha contra o general facista Franco. A virtude da emoçao criada pelos atores se deve muito ao posicionamento quase submisso da camera de Ken Loach, que "simplesmente" observa à distancia as diversas opinioes, permanecendo de maneira discreta diante do panorama dramático. Os primeiros terminos do enquadre sao sempre compostos por cidadaos desenfocados, escutando a opiniao em foco. Cada um é respeitado pelo outro, e pela camera. Assim é " Tierra y Libertad", um filme que indaga um momento da revoluçao espanhóla sob a digna óptica de um diretor que nao pode faze-lo de outra maneira, a nao ser estar com os que tem a luta mais dificil.

5. Impacto contemporaneo

Se reivindica o filme no presente pra dizer que a luta ainda nao terminou. A neta de David, deixa a mensagem bem clara no final do filme. A revisao histórica desse tipo de filme é importante também para alertar a esquerda contemporânea, que nao pode cometer os mesmos erros do passado (mas ainda comete). A evidencia é que o mundo moderno está cada vez mais distante de lutar por justas causas. A política espetácular é a grande ilusao do seculo XXI, e se expande pelo mundo usando falsamente a palavra Democracía, em nome da sociedade de mercado. É evidente que sao duas coisas distintas, e que a prática atual vai em contra das liberdades individuiais, através da proliferaçao do medo, e do controle polícial. É só olhar para a atual França e Itália por exemplo, onde seus representantes precidenciais usam os meios de comunicaçao (os quais controlam), para criar a perfeita imagem da falsa democracia, gerando uma falsa ilusao de seguridade, impulsionado pela apologia ao positivismo forçado através do consumo sem fim, e ignorando totalmente suas dividas e responsabilidades históricas com o atual contexto de catástrofe social.

Terra em Transe, 1967






A quatro anos atras, quando vi "Terra em Transe" com 19 anos por primeira vez, nao entendi nada. Tive a oportunidade de acompanhar o primeiro passe da copia restaurada pelo "Grupo Novo de Cinema e tv.", quando entao trabalhava para essa produtora com o filme Cleopatra, de Julio Bressane. Me lembro ao sair da sessao, comentando com minha prima Julia, que o filme era hermético de mais, e que havia gostado, mas nao sabia porque...Hoje, quando me deparo com "Terra em Transe", tudo me parece terrivelmente bem claro! Em si mesmo, haver compreendido um filme nao significa nada. Para os que viveram a época, entendem perfeitamente, mas para um jovem de 19, classe media mais ou menos alienado, os 60 e 70 eram épocas mitologicas da história, algo distante, distantes épocas de ditadura militar. Dizia para mim mesmo "esse tempo ja nao volta mais".Achava que a postura revolucionaria fosse algo fácil de assumir, bastando ler uns livros de Bakunin, Marx, a biografia de Che Guevara e me sentir a pessoa mais justa do mundo.

Hoje em dia me parece inacreditável a hipocrisia do poder mediatico em mitificar a época dos hippies. Ao ponto de escutar jovens da minha idade, 20 a 25 anos dizendo " como eu gostaria de haver nacido na decada de 60 e 70, haver ido a woodstock" hoje tenho a impressao que os hippies nao queriam nada com nada, nada além de se entregar a um hedonismo nada sofisticado, criador de musicas hipnoticas e psicodelicas, que por certo, levou milhoes para bem longe desse planeta.


Por sorte os grandes cineastas da época estavam com o olhar bem afiado contra a hipocrisia. Na década de 60 e 70 o cinema realizaou sua propria revoluçao: . Neo-Realismo italiano, Nouvelle Vague francesa, Free Cinema ingles, Novo cinema alemao, e o grandioso Cinema Novo brasileiro, foram os principais rótulos que se deram aos cieneastas que justamente, queriam acabar com os rotulos vigentes e criar um cinema realmente vivo, fora dos altos gastos dos estudios, um cinema que pulsasse diretamente do sangue do povo para a tela, onde as duras contradiçoes do mundo deveriam ser retratadas, para, apartir do auto-retrato, surgir a auto-critica: uma forma potente de gerar mudanças.
Seguramente, Glauber Rocha, a nivel mundial, foi um dos maiores artistas deste tempo, junto com Godard e outros. O magistral conceito "Estetyka da fome", o mais glauberiano de todos, foi aplicado da maneira mais justa possivel frente ao que realmente merecia ser visto sobre nosso pais. Nossa grande janela para o mundo. Uma janela perigosa, que dava para um territorio hostil contra os que "querem cantar", e Glauber sabia bem disso, e fez de seu cinema uma questao de sobrevivencia, assumindo os riscos que implicam sua atitude.



"Terra em Transe" milita em nossas mentes, e em 2008, o visionado suguere que essa luta está longe de ter acabado. O impacto é terrivelmente atual: os elementos da transiçao democratica, ou o que chamamos de abertura viraram simples palavras, reduzidas a simples terminos,pois na realidade, o que sempre se manteve foi a firme pratica de um estado brasileiro governado a mao de ferro, tanto pela direita quanto pela esquerda. Ver "Terra em Transe" em 2008, nos leva a pensar que as causas que levaram Glauber a fazer esse filme seguem legitmas até hoje no Brasil. Fica a sensaçao que ainda somos governardos por gente autoritária. Os que antes perseguiam comunistas, agora jogam pobres na cadeia. Podemos falar de pequenas evoluçoes, mas essencialmente o pais continua o mesmo: o velho rico mais rico e o pobre mais pobre, ou ordem para o povo e progresso para a burguesia. A mesma realidade cruel, onde o que queremos nao é que todos os cidadaos possam comprar uma ferrari, deus nos livre de ter uma! pra que? só queremos condiçoes dignas de viver e acesso à educaçao de qualidade e gratuita para todos. Se para politica essa idéia é uma utopia, eu me pergunto, o que realmente deseja alguem que chega no poder?

Jean-Luc Godard - Dans le noir du temps (sub eng)

Analizar "dans le noir du temps" implica em profundizar em uma série de citaçoes literárias e cinematográficas, das quais muitas delas ainda nao tive oportunidade de me deparar. Implica em comentar essas citaçoes e compara-las com a utilizaçao de Godard neste filme, afim de chegar na nova dimensao que o cieneasta deu à essas imagens pre existentes. Mas nao será por esse caminho que vou seguir neste cometário. Decidi escrever sobre esse curtametragem, simplesmente pelo gosto que tenho em comentar as grandes obras do cinema. Este é um texto menos analitico, e mais enaltecedor.

Em 1991 Jean Luc Godard realizou o maior curtametragem da história. Me identifico com essa afirmaçao pretenciosa, porque o cinema como quase tudo nesta vida, é feito de fragmentos bons e ruins, uns sao as referencias maximas da beleza, e outros do que nao vale a pena. Desta forma, nao tenho problemas em separar as qualidades de cada material, e classifica-los em grandes ou pequenos. Obviamente nao vi todos os curtametragens da história, mas ao visionar "dans le noir du temps" é fácil supor que ninguem chegou aonde ele chegou. Através de sequencias de ligeira repetiçao, Godard nos vai guiando pelos "ultimos minutos da juventude", "da valentia", "do pensamento", "do impresindivel", "do amor", "do silencio", "da memoria", "da historia", "do medo", "do eterno" e "do cinema", até chegar no ultimo capitulo, a "ultima visao". Com o aresenal de imagens que compoe cada capitulo o espectador vai se deparando com um choque de imagens metaforicas, afim de direcionar nosso olhar até a nostalgia pelo infinito, para "aniquilar a aparencia de terminado; em tal efeito temos que colocar todo o saber em estado revolucionario". Ao invocar os ultimos minutos da essencia do homem, Godard busca chegar na esscencia do mesmo.

"dans le noir du temps" é o maior da história, nao só porque ele fala da própria história humana pelas imagens do cinema, mas também porque é através desta forma pura de montagem (de puro cinema), que o curtametragem expressa toda desgraça da tragédia humana, chegando ao mesmo tempo na essencia do homem e na essencia do cinema. A uniao perfeita da expressao artisca refletindo o homem, e o meio que utiliza para essa reflexao.