Terra em Transe, 1967






A quatro anos atras, quando vi "Terra em Transe" com 19 anos por primeira vez, nao entendi nada. Tive a oportunidade de acompanhar o primeiro passe da copia restaurada pelo "Grupo Novo de Cinema e tv.", quando entao trabalhava para essa produtora com o filme Cleopatra, de Julio Bressane. Me lembro ao sair da sessao, comentando com minha prima Julia, que o filme era hermético de mais, e que havia gostado, mas nao sabia porque...Hoje, quando me deparo com "Terra em Transe", tudo me parece terrivelmente bem claro! Em si mesmo, haver compreendido um filme nao significa nada. Para os que viveram a época, entendem perfeitamente, mas para um jovem de 19, classe media mais ou menos alienado, os 60 e 70 eram épocas mitologicas da história, algo distante, distantes épocas de ditadura militar. Dizia para mim mesmo "esse tempo ja nao volta mais".Achava que a postura revolucionaria fosse algo fácil de assumir, bastando ler uns livros de Bakunin, Marx, a biografia de Che Guevara e me sentir a pessoa mais justa do mundo.

Hoje em dia me parece inacreditável a hipocrisia do poder mediatico em mitificar a época dos hippies. Ao ponto de escutar jovens da minha idade, 20 a 25 anos dizendo " como eu gostaria de haver nacido na decada de 60 e 70, haver ido a woodstock" hoje tenho a impressao que os hippies nao queriam nada com nada, nada além de se entregar a um hedonismo nada sofisticado, criador de musicas hipnoticas e psicodelicas, que por certo, levou milhoes para bem longe desse planeta.


Por sorte os grandes cineastas da época estavam com o olhar bem afiado contra a hipocrisia. Na década de 60 e 70 o cinema realizaou sua propria revoluçao: . Neo-Realismo italiano, Nouvelle Vague francesa, Free Cinema ingles, Novo cinema alemao, e o grandioso Cinema Novo brasileiro, foram os principais rótulos que se deram aos cieneastas que justamente, queriam acabar com os rotulos vigentes e criar um cinema realmente vivo, fora dos altos gastos dos estudios, um cinema que pulsasse diretamente do sangue do povo para a tela, onde as duras contradiçoes do mundo deveriam ser retratadas, para, apartir do auto-retrato, surgir a auto-critica: uma forma potente de gerar mudanças.
Seguramente, Glauber Rocha, a nivel mundial, foi um dos maiores artistas deste tempo, junto com Godard e outros. O magistral conceito "Estetyka da fome", o mais glauberiano de todos, foi aplicado da maneira mais justa possivel frente ao que realmente merecia ser visto sobre nosso pais. Nossa grande janela para o mundo. Uma janela perigosa, que dava para um territorio hostil contra os que "querem cantar", e Glauber sabia bem disso, e fez de seu cinema uma questao de sobrevivencia, assumindo os riscos que implicam sua atitude.



"Terra em Transe" milita em nossas mentes, e em 2008, o visionado suguere que essa luta está longe de ter acabado. O impacto é terrivelmente atual: os elementos da transiçao democratica, ou o que chamamos de abertura viraram simples palavras, reduzidas a simples terminos,pois na realidade, o que sempre se manteve foi a firme pratica de um estado brasileiro governado a mao de ferro, tanto pela direita quanto pela esquerda. Ver "Terra em Transe" em 2008, nos leva a pensar que as causas que levaram Glauber a fazer esse filme seguem legitmas até hoje no Brasil. Fica a sensaçao que ainda somos governardos por gente autoritária. Os que antes perseguiam comunistas, agora jogam pobres na cadeia. Podemos falar de pequenas evoluçoes, mas essencialmente o pais continua o mesmo: o velho rico mais rico e o pobre mais pobre, ou ordem para o povo e progresso para a burguesia. A mesma realidade cruel, onde o que queremos nao é que todos os cidadaos possam comprar uma ferrari, deus nos livre de ter uma! pra que? só queremos condiçoes dignas de viver e acesso à educaçao de qualidade e gratuita para todos. Se para politica essa idéia é uma utopia, eu me pergunto, o que realmente deseja alguem que chega no poder?

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