Caos Calmo, 2007




Caos Calmo é um filme intimista que tenta retratar a desumanidade, ou , insensibilidade da classe burguesa italiana.
Enquanto sua mulher sofre um acidente fatal, o protagonista Pietro está salvando uma mulher afogando-se na praia. Quando está de volta vê ambulancias, sua filha corre para abraça-lo, e vê que o destino o fez um viúvo. A questão deste filme, é que Pietro, aparentemente não sofre com essa perda. Suas emoções ficam bloqueadas, e então seus sentimentos subterraneos vs. a tranquila atitude superficial, geram o contaponto indicado no título. " Caos Calmo".


Apartir de agora, este alto empresario do setor audiovisual italiano, limita sua ações cotidianas apenas em levar sua filha à escola, e ali permanecer sentado, num banquinho da praça em frente, esperando até a hora da saida. Simplesmente observa o repetido movimento diário, e de forma contemplativa, se relaciona com o que há ao seu redor. Abandona seu trabalho, e recebe visitas profssionais e familiares ali mesmo, afirmando pra si e para os demais, a inutilidade de tentar resgata-lo à vida normal. Vemos agora o rico burgues vazio, incapaz de sentir e exteriorizar suas emoções.


Desta forma o filme pretende estabelecer uma crítica sobre a sociedade industrial contemporanea, como se o monólogo de Piertro representasse a realidade emocional de milhões de pessoas das cidades cosmopolitas. De fato, funciona como uma crítica indireta: a simpatia de Nani Moretti chega representar um obstáculo numa representaçao mais ácida por parte do protagonista, formando assim um filme mais aproximado aos moldes do costumismo. O pesonagem de Pietro tinha tudo para ser um tipo desprezível, mas devido ao seu caráter calmo e contemplativo, o espectador passa a respeitar a decisao de seu retiro quase como um autentico retiro espirtual em plena selva urbana,de forma merecida. Momentos onde o persnagem deseja por fim econtrar consigo mesmo afim de liberar de suas emoçoes reprimidas: este momento culminará no choro de Pietro. Neste sentido podemos observar como a construçao do personagem se baseia em um concreto perfil psicológico semi-neurótico, de uma tipica pessoa que atravessa uma crise egoísta.


Quanto a questoes formais, o diretor nao se atreve mais do que copiar movimentos de camera utilizados ja por outros cineastas, referindo-se aos filmes de Godard na utlizaçao de travellings laterais repetidos em alternancia, para expressar uma mudança de decisao momentenea. O
encuadre mais arriscado do filme seria um plano com a camera em vertical sobre o mar, focando a afogada resgatada, logo no primeira sequencia. Técnicamente um plano dificil de se realizar.


Estruturalmente, a linha narrativa, figura a praça em freta à escola da filha, como o espaço epicentrico do filme, que magnetiza até si os ocorridos fora de campo. A maioria dos elementos que compõe a ação narrativa neste espaço em concreto (atores e objetos) cumprem com suas justificações cinematográficas, e ajudam à expressão da crisis do protagonista. Mas existem alguns elementos exteriores ao espaço que não se completam, e taopouco possuem uma justificativa cinematográfica coerente, fazendo com que uma ou outra sequencia do filme sejem absolutamente desnessarias. Referindo-se à repercutida sequencia de sexo. A personagem feminina desta sequencia em concreto, não representa no filme nenhuma outra importancia, a não ser "trepar" com Nani Moretti de maneira selvagem. Pode-se dizer que ela serve como um elemento de substituiçao da falecida mãe; e mulher, mas seguramente, essa atriz de belo corpo foi representada de maneira exagerada e desnecessária; resumindo, incoerente cinematográficamente.


O proprio autor do livro que gerou o filme, Sandro Veronesi, comentou a repercução dessa sequencia, dizendo que ela chocou devido que a filha de Pietro dormia neste momento no quarto acima. Em minha humilde opiniao (não li o livro), digo que o choca não é o sexo em si, e sim a desarmonia com que esta sequencia foi utlizada em comparação com o que vinha sendo trabalhado nos outros segmentos do filme. Neste caso, é sempre bom lembrar a Robert Bresson " um plano é como a cor de um quadro, um amarelo, nao é o mesmo amarelo ao lado de um azul ou um verde..." O diretor de "caos calmo" vinha trabalhando com predominancias "azuis", por dizer algo, e do nada joga um balde de verde florecente no espectador: claro que vai chocar, e claro que nao tem nada a ver.


Voltando a Pietro. Ele segue ali, dia após dia. Sentado esperando sua filha na hora da saída, e o mundo girando ao seu redor. Pietro ja não quer encarar suas responsabilidades adultas. O único elemento que o mantem vivo é sua filha, que assim como o pai, mantem também suas emoções frias pela morte da mãe. Em um momento interessante, onde Pietro se encontra em uma especie de encontro psiquiátrico grupal, entende que sua filha não sofre, pois ele também incapaz de sofrer, gerando uma reflexão sobre o desenvolvimento emocional das futuras gerações. A menina, que só chorou uma vez no filme, e no começo. Gosta da Britney Spears, e é retratada como uma prolongaçao emocional do pai, e deixa pistas de como os autores prevém o comportamento dos futuros adultos italianos.

"Caos calmo" navega por águas contraditórias, Pietro é contraditório, e sua filha está para ser uma adulta neurótica, devido aos seus sentimentos reprimidos. Destacando-se o trabalho específico ao desenho psquico de cada personagem, como quem tenta representar as potentes previsões de Carl Jung sobre a saúde psicológica do nosso tempo, feitas em 1930. O que era para servir como crítica dura, acaba minimizado ante uma agradável atuação de Moretti, da qual o filme deve seus triunfos, quase em totalidade. Foi uma boa surpresa também, ver a participaçao de Roman Polanski interpretando um magnata americano, numa rápida aparição.

Aritmética Emocional, 2006


Antes de realizar este filme, o diretor Paolo Brazan se pergunta:

" Como sobrevive emocionalmente um sobrevivente da segunda guerra mundial?"
" Como a memória afeta a capacidade de ser feliz?"
" Relembrar o passado pode ser um obstáculo para a felicidade?
" A memória desenha nossa compreensão do presente, paraliza os sentimentos, põe em perigo o potencial de amar, e imoviliza as futuras gerações?

Atravéz destas interrogantes aparece , "Emotional Arithmetic" inspirado no livro de Matt Cohen. Se trata de uma história de feridas que , não sabemos, talvez nunca se curarão. Um filme sobre o reencontro entre pessoas que estiveram, e seguirão estando ligadas para sempre. Sim, se trata de uma história de amor, mas de um amor extraordinário, ligado aos piores horrores do passado. Um amor unido pela memória, e nada mais.



Segundo longa metragem de Paolo Brazan, diretor com longa experiencia em series televisivas. Extraordinariemente interpretado por Susan Sarondon (Malaine), grandioso Gabriel Byrne (Cristopher) e pelo heróico personagem Jackob (Max Von Sydow).



Pretéritos



Melanie, uma americana que passou parte de sua juventude na França durante a década de 40, cujo os pais sumiram sem deixar rastros , e que foi arrastada para o campo de concentração Darcy, ao norte de París. Espaço usado como área de passagem e transporte humano para outros campos, onde se calcula que passaram umas 100.000 pessoas, e provavelmente a maioria morreu. Nossos personagens seriam sobrevientes milagrosos da maior tragédia. Neste local, Melaine e Cristopher (13 anos aprox.) conhecem a Jackob (entao com 30 anos aprox.), um judeu polonês, que após a guerra morou na Russia, e no campo, além do trabalho forçado, atuava como protetor das crianças Madaleine e Cristopher. Jackob era o anjo que não deixava os outros sequestrados cairem no desanimo. Fazendo-se de garçom, servia comidas imaginárias para aliviar a fome dos seus companheiros . Pouco antes da guerrra terminar, subornou os guardas colocando-se à disposiçao de ir no trem para auschwitz em troca da permanência de Cristopher e Melanine em Darcy. Chistopher era uma criança irlandesa ,cujo os pais tambem haviam desaparecido. Não era judeu, mas foi capturado pela polícia francesa e levado ao dito campo. No entanto, ali conheceu a Melaine, e juntos estabeleceram uma união de sobrevivencia. O filme representa esses momentos atravéz de flashbacks, principalmente quando os personagens estão sozinhos . A lógica dos campos o forçou a separação entre os pequenos, deixando para os próximos 40 anos, a dor, a incerteza, o amor, e a memória implacável.

Fotografia durante as filmagens

´ Você me pergunta se acredito em Deus. Me desculpa se respondo, Deus acredita em mim?`

Presente


O filme começa no ano 1985. No transcurso destes 40 anos, Melaine se casou com um professor de história muito maior que ela, David (Cristopher Plummers), com quem mantém uma relação, digamos , distante, e produziu um filho, o observador Benjamim (Roy Dupuis), que por sua vez gerou um neto, o pequeno Timmy. Após a guerra, Melaine se dedicou a reunir informações sobre sobreviventes, e entao descobre que Jackob está vivo. Se apressa a entrar em contato com o homem que salvou sua vida, convidando ao já senhor maior, nao só para uma visita, mas também para vivir com ela, que agora reside no Canadá. Jackob responde sua carta, e não dúvida em ir a vê-la. E para a surpresa de Malaine, traz consigo a Cristopher, que hoje é um homem introspectivo, mora e trabalha em París, onde se especializou em estudar vespas (não consegui compreender o signifado cinematgráfico de seu destino).


Este reencontro iniciará uma série de questionamentos entre os nossos protagonistas. Se estabece um ambiente de emoçoes muito delicadas, que nao só desejam, mas que precisam exteriorizar-se. A cada primeiro plano vemos brilhantes expressões de angústia, que impressionantemente ,trazem consigo todo o enorme peso de uma geração submergida nas memórias do horror . Cada um tenta manejar suas fortes emoções de maneira "aritmética" criando um ambiente de erupção emocional, onde o espectador é quase obrigado a interfirir com suas lágrimas. Um reencontro de alívio, mas realmente difícil para todos, e para nós também.


Logo após a chegada dos convidados à pequena casa rural onde vivem Malaine e David, vemos um ambiente cordial, mas que logo se tranformará em uma tensa atmosfera. Haverá um jantar pela noite, mas antes, o dia nos servirá para entender a verdadeira face da relação que os une. David é cínico, e reage de forma hostil aos recém chegados. Cristopher se sente incomodo pela surpresa que causou sua presença, e por ver a mulher que amou pelas lembranças, casada com outro homem. Jackob olha pra Melaine com dor, apesar de hoje ser uma mulher forte e decidida , ele se culpa por haver dado uma missão à ela quando estavam no campo: Jackob lhe deu um caderno e a comentou a importância histórica de documetar os ocorridos em Darcy. Então a pediu que anotasse cada nome, nacionalidade, idade, peso; cada detalhe dos que chegavam ao campo. Melaine obedeceu como uma boa criança, e pela noite no jantar ela devolverá o caderno com a missao cumprida. Jackob logo percebe que haver feito esse pedido a ela, impossibilitou que Melaine fosse feliz. Em cada número, cifra ou letra, Melaine gravava o expoente multiplicativo de sua dor.





De todas as exelentes sequencias que compoe o filme, é justo ressaltar uma em especial que ocorre antes desse jantar. Melaine e Cristopher vão à cidade comprar a comida. É a primeira vez que estão sozinhos em 40 anos. Essa sequencia diurna serve para marcar o ambiente prévio à erupção emocional que culminará no mecionado jantar, e nela está contida os muitos sentimentos à sombra que o filme pretende invocar. Dirigida com maestria, através de planos em velocidade e um ritmo que projeta alta tensão , utiliza um trem, como elemento semiótico para representar ditos sentimentos . Neste momento estão os dois no carro a caminho da cidade. Para potencializar o constragimento deste do reecontro, se estabelece um montagem paralelo entre o carro dos personagens, e o trem que cruzará seu caminho. Será demais, ter que além de tudo, parar o carro, e em silêncio olhar o trem passar quando chegarem ao cruzamento de vias . Melaine então, se apressa e pisa no acelerador para ultrapassar o temido trem, e quando chega o crucial momento de cruza-lo, escapam por um triz de não se chocar . Este momento é quando se quebra o gelo entre eles, e após uma longa rizada para aliviar, os dois se olham e lembram o que são: dois sobreviventes que se amam.

É quase impossivel não dizer que o que une Melaine e Cristopher seje maior do que une ela e seu atual marido, que por sua vez, é o que o filme diz, uma vítima indireta da guerra. Atravéz desse fato surge as refelxões que o filme propõe : Pode o ser humano viver sem se indentificar com o passado? Apesar das respostas cinematográficas (fatos) contidos no filme sejem predominatemente negativas frente à essa questão, o filme termina com a despedida calorosa entre Cristopher e Melaine. Ele compreende que nada poderá mudar o sentimento que compartem mutuamente, e decide ir-se para não provocar mais ultra-emocionalismos. O velho Jackob, permanece com ela para tentar se "redimir", e com sua importantíssima presença para Melaine, provavelmente irá ajuda-la a ser feliz.